Supernova

Supernova | Sergio Coimbra

Marcello Dantas, curador

O conhecimento científico e a intuição são habilidades que nos permitem enxergar o que não conseguimos ver. Enquanto no campo da ciência a teoria justifica o que podemos observar, na arte são as camadas mais profundas da consciência que nos permitem adentrar territórios normalmente inacessíveis.

Um dos fenômenos mais fascinantes do universo, as supernovas são um evento cósmico que marcam o fim da vida de uma estrela. Caracterizada por uma explosão extremamente brilhante durante um curto espaço de tempo, causam um efeito similar ao surgimento de uma nova estrela, recebendo assim esse nome. Bastante raro e imprevisível, esse fenômeno representa um grande desafio aos astrônomos em busca de registrar este instante mágico, que pode ter ocorrido milhões de anos atrás mas sua luz ainda se propaga no espaço. Sendo assim, a imagem de uma supernova como conhecemos é geralmente uma simulação digital feita a partir da reconstituição das ondas eletromagnéticas que foram geradas em seu acontecimento real.

Sergio Coimbra é um conhecido e talentoso fotógrafo que se especializou em criar uma nova dimensão para a representação do alimento. Certa noite ele me mostrou algumas imagens de pratos que havia feito na Itália com o chef Massimiliano Alajmo de Padova, utilizando uma técnica que ele denominou como spin. Imediatamente percebi a enorme similaridade que as imagens tinham com a reprodução das supernovas.

Entre o vazio maior do universo e o vazio essencial do estômago nasce uma surpreendente conexão da astronomia com a gastronomia. Comparando as imagens, entendemos que ambas são simulações de matérias das quais não conseguimos compreender, presentes entre a explosão, a órbita e o desconhecido.

Parte do ofício da arte é fazer crer naquilo que não se pode enxergar. Essa dúvida provocada no olhar revela que a razão não pode responder a tudo, assim como o conhecimento científico frequentemente se demonstra precário e transitório.

Nossos olhos veem o que desejam ver. Sergio Coimbra buscou na simplicidade da imagem se desmaterializando a expressão simulada de um universo em transformação que os cientistas passam anos rastreando. O micro e o macro se igualam, a ciência e a intuição se encontram.

Essa exposição é sobre ver o universo em um grão de comida. Enxergar o planetário na dimensão de um prato e perceber a luz transformar tudo em volta. Esta série nos propõe a refletir sobre onde estamos na fronteira da razão e da imersão. O convite é para entrar e deixar que a obra entre em você.

Veja o mundo num grão de areia,

veja o céu em um campo florido,

guarde o infinito na palma da mão,

e a eternidade em uma hora de vida!

William Blake

Marcello Dantas