A perenidade das bolhas de sabão

ATÉ 29/03 - Exposição do trabalho da fotografa Juliana Lewkowicz

Abertura da Exposição

A perenidade das bolhas de sabão

Olhar o mundo é substancialmente diferente de fotografá-lo. Fotografar o mundo é distinto de transmutá-lo em imagens. O mundo já foi visto e fotografado em demasia. De tanto ser visto e fotografado, o mundo está nu. Desnudo e excessivamente exposto, o mundo necessita de imagens que o vistam. O mundo clama por olhares que o reinventem. A arte do nosso tempo - um tempo de excessiva exposição de tudo -, deve ter como um de seus preceitos re-magicizar o mundo, desvelando parcelas segredadas que despertem nossa percepção adormecida para aquilo que transcenda a vã racionalidade e o saber de superfície.

Artistas são eminentemente seres políticos que têm como função calibrar nossa forma de olhar o mundo para que o percebamos por um viés mais sensível e além dos seus jogos de ilusão e aparência. É nesse sentido que Juliana Lewkowicz atua nessa sua primeira mostra individual. Suas delicadas composições fotográficas nos oferecem mais do que imagens sobre a paisagem do mundo. Essas séries conjugam entre si uma trama poética que interpela o nosso olhar por meio de anteparos que se colocam entre nós e a paisagem. Bolhas de sabão, espelhos e o reflexo oriundo da ação dos raios solares sobre a lente da câmera fotográfica tornam-se artífices de uma construção que almeja criar um hiato na nossa percepção do mundo.

As bolhas de sabão aludem diretamente às brincadeiras de infância. Com gravidade que tende a zero, dançam na atmosfera conforme o fluxo dos ventos, conferindo visibilidade ao que é da ordem do intangível. Sua superfície espelhada e arredondada mimetiza e reflete o mundo em 360 graus. Mesmo carregando o mundo em si, a leveza extrema de sua arquitetura é sua principal característica. Se olharmos através da película aquosa que a constitui, teremos uma visão distorcida da paisagem, como se ela afirmasse assim pertencer a uma outra instância. Sua beleza contundente dá-se à contemplação por poucos segundos, até que sua natureza efêmera a faz explodir diante de nossos olhos, sem deixar vestígios.

Para onde vão as bolhas de sabão após desaparecem da nossa visão? A fotografia, essa invenção que o homem criou para aplacar sua angústia diante das coisas do mundo que desaparecem no fluxo incontornável do tempo, surge aqui para tentar interromper esse processo e tornar perene a existência de algo que tem na fragilidade e volatilidade seu encanto. Mas a imagem de uma bolha de sabão não é uma bolha de sabão. É uma imagem.

Consciente desse jogo especular entre objeto e representação, imagem e imaginação, a artista invoca a memória de uma brincadeira infantil para fazer reemergir, em nós, reminiscências de uma época em que nossa capacidade de perceber o mundo pela via da magia e do encantamento nos conduzia a uma cosmovisão mais transcendente e delirante do entorno, da paisagem e do mundo que se expandia ao ritmo de numa fábula infinita.

Nas metáforas elaboradas pela artista, espelhos podem vir a ser bolhas de sabão em forma sólida e plana com o viés surrealista de amalgamar numa mesma superfície dois pontos de vista: o da artista, ou seja, uma paisagem na qual está inserido um espelho e a paisagem que está diante - ou acima -da paisagem para a qual a artista aponta sua câmera, a qual vemos refletida no espelho. Ver ao mesmo tempo o que está diante dos nossos olhos e o que escapa a esse campo visual revela o desejo de um olhar totalizante impossível. No mesmo flagrante, condensa-se a imagem que vemos e a imagem que nos vê. A fotografia, assim como nossa visão, sempre tem um avesso que não apreendemos jamais. Nessa série Juliana nos revela em parte, como quem se ausenta da cena, que o mundo é uma espécie de rebatimento de paisagens que se auto observam indiferentes à nossa avidez por reduzi-lo a imagens planas.

Os manuais orientam os fotógrafos a evitarem captar imagens com os raios solares incidindo diretamente sobre a lente da câmera. A artista, no entanto, negligencia tal instrução gerando assim "indesejáveis" reflexos em suas fotografias. Esse (d)efeito, ao trair o estatuto da captação "correta" da imagem, contribui para mais uma vez desnudar o jogo de aparências da representação fotográfica. As Órbitas geradas por tal estratégia criam um incômodo na contemplação da paisagem ao mesmo tempo em que materializam algo que escapa à capacidade de percepção do nosso olhar sem câmera. Essas Órbitas são gestadas por meio do olhar maquínico em negociação com o gesto criativo de Juliana que novamente gera a presentificação de algo imaterial e de natureza instável que só a arte fotográfica pode fazer existir.

A Perenidade das Bolhas de Sabão é um poético e necessário convite a uma visão que transcende a faculdade da visão. É um singelo manifesto a favor de que a experiência de estar no mundo se sobreponha à tentação de encapsulá-lo em imagens estéreis. É, por fim, a expansão limítrofe da beleza efêmera, mas não menos intensa por isso, das bolhas de sabão que fotografamos sem câmera nas paisagens segredadas da memória da nossa eterna infância.

Eder Chiodetto